Arcaneum

11. Os Ladrilhos Flúvios (09 de Setembro)

O grupo de aventureiros atravessa o arco que acabara de se  formar na parede de pedra, deparando-se com um sombrio corredor negro. Nenhuma fonte de iluminação se manifesta no local, mas Duck consegue enxergar parcialmente na penumbra devido à magia proveniente de sua capa lúpica. Há uma áurea fúnebre e algo nostálgica pairando entre a respiração pesada do trio. O chão do local é particularmente frio. Em busca de tochas para distribuir a seus colegas, Duck se depara com um objeto deixado em sua bolsa: um peixe de metal, construído com molas e placas de ferro, no qual estavam gravadas as iniciais: E. N.

- Gente, olha só o que deixaram na minha bolsa! E.N? Acho que foi o Elmo Nelos. Que carinha engraçado! Você tem que conhecer ele, Callie – ele reage com um sorriso no rosto, enquanto terminar de entregar as tochas.

No fim do corredor, eles avistam um pesado e imponente portão de barras de metais, firmemente cravado nas paredes negras. Por trás do portal, há uma enorme sala retangular, aparentemente vazia. Xavier sente uma aura mágica protegendo a porta, apreendendo que ela só poderia ser aberta com uma chave. Duck ainda tenta forçar as grades de ferro, mas não obtém sucesso. Callie sugere que eles explorem o local em busca da chave.

Os jovens analisam o lugar e rapidamente percebem que se trata de um labirinto. O corredor à direita do portão mostra um emaranhado de entrâncias e reentrâncias nas paredes, enquanto o corredor da esquerda termina em duas portas, peculiarmente intocadas pela poeira e ostentando um brilho róseo mágico, uma do lado da outra, como se dessem para o mesmo ambiente. Xavier instintivamente abre a primeira porta, sendo recebido por uma massa vultuosa de borboletas, que o lançam violentamente ao chão – e elas não param de sair pela porta, como se fosse uma armadilha enfeitiçada. Callie fecha rapidamente a misteriosa porta rosada, com um baque, fazendo o enxame cessar.

- Quem faz uma armadilha com borboletas? – Pergunta a halfling esbaforida.

- Fiquem atrás de mim, vou tentar abrir a outra porta – Duck ordena enquanto conjura uma esfera flamejante para receber inamistosamente o que quer que estivesse do outro lado.

Xavier tenta se concentrar para pressentir algum perigo mágico no local, descobrindo algo interessante no processo.

- Pessoal, esse lugar todo é enfeitiçado com uma magia de reminiscências. É como se ele fosse criado para reviver lembranças.

Duck engole seco antes de abrir a segunda porta. Que tipo de memórias alguém poderia querer reviver ali? Para sua surpresa, no vão aberto da segunda porta, eles se deparam com uma enorme mão enfeitiçada, pairando e realizando gestos pomposos. Ao tentar atravessar, a mão empurra Duck, fazendo um movimento com o dedo indicador em rispe, repreendendo-o.

- Dona mão, deixa a gente entrar – Duck fala brincando, claramente sendo irônico, enquanto Callie ri da piada do amigo. Mas para a surpresa do trio, a mão faz uns rodopios no ar e libera a passagem pela porta.

- Isso é coisa de fada! Elas querem que todo mundo seja educado e polido. Alguém entra primeiro – Callie fala, visivelmente cabreira.

O ambiente por trás da porta educada é mais do mesmo, com exceção de um novo portão de grades pesadas que se encontra na parede à direita, dando visão para a mesma sala retangular vazia do início do labirinto. É como se essa sala fosse o centro do lugar, com várias portas de acesso, e um labirinto se estendesse ao redor. Sem a chave do portão, os magos de Arcaneum e a bardo se esgueiram corredor acima.

Conforme caminham na escuridão, eles começam a escutar vigilantes passos, que não se manifestam aos chamados dos aventureiros. Duck esbarra em uma figura misteriosa no escuro, espremendo os olhos para enxergar um jovem humano com vestes arcanas de tom acinzentado, apoiando o andar em um rude cajado de madeira. Ele tem um semblante ansioso e deixa escapar alguns cachos de cabelos loiros entre os fios do capuz. Nenhum sucesso ao tentar contato com ele. Até parece que ele não existe de verdade.




O clima fica mais e mais tenso, enquanto Xavier, Duck e Callie seguem os passos trôpegos do garoto, que se mostra ofegante, quase tendo um ataque de pânico. Das profundezas de concreto da parede do corredor, uma outra figura emerge. O homem, que se revela um elfo, mais nítido na visão de Tyler, agarra o garoto com um solavanco violento. Os aventureiros conseguem escutar as batidas do coração do jovem eclodindo entre as orelhas. O elfo segura as vestes do menino com tanta força que é possível ouvir os nós dos dedos estalando. Com um dedo em riste em frente à boca, ele pede silêncio.



"Mestre Cairel, me, me.desculpe…" – O garoto balbucia.

"Silêncio, Sasha, estou farto de sua incompetência. Onde ele está?" – Eles desaparecem e reina o mais imperioso silêncio.

- Isso deve ser uma memória, gente! Acho que nós vamos reviver cenas nesse lugar até descobrir o que aconteceu aqui – Duck opina – Vamos em frente!

Ao fim desse corredor, eles se deparam com um baú de madeira, descansando em uma reentrância na parede. Xavier não examina muito bem o objeto antes de abri-lo impulsivamente, liberando um bando de enormes ratos de aparência doente. Ele fecha o baú rapidamente, a fim de impedir que todos os animais consigam escapar. Os magos são mordidos nos pés e tornozelos pelos roedores, enquanto Callie, por ser mais baixa, é atacada até a cintura, o que faz com que a halfling tenha que sair correndo aos berros por entre os corredores do labirinto. Xavier conjura, com o seu cajado, um enxame de abelhas, que violentamente começam a atacar os ratos, enquanto Duck conjura labaredas de chamas em direção ao chão, chamuscando os pelos dos roedores. Callie volta correndo pedindo ajuda, enquanto vários ratos a perseguem implacavelmente, mas eles são prontamente fritados por Tyler. Para lidar com os demais ratos no baú, Duck se prepara e usa sua magia de patas de aranha para se fixar à parede, enquanto segura o baú com a abertura virada em direção à sua esfera flamejante. Ao abrir o objeto, uma manada de ratos sai freneticamente de dentro da caixa, em uma cascata com destino inevitável à morte: todos são carbonizados pelas chamas. O trio fica em silêncio, enquanto examinam as feridas inflamadas e pruriginosas deixadas pelos roedores em seus tornozelos. À inspeção mais apurada, havia uma placa metálica por trás do baú, onde se lia: "Ratos".

De repente, gritos de dor começam a ecoar pela câmara. São urros guturais, que não parecem ser emitidos por nenhuma criatura humanoide, fazendo com que até as paredes do labirinto estremeçam. A criatura escondida no negro murmura com seu tom grave: "Eth… Eth…." – Parece estar em súplica.

Quando o silêncio reina novamente, o trio decide tornar a caminhar, seguindo um corredor à direita, indo de encontro a uma enorme janela que testemunha o céu noturno acima da floresta. Não era dia quando eles chegaram? A noite observa agitada enquanto diversas tochas e gritos se acotovelam abaixo da copa das árvores lá embaixo. Os viajantes agora parecem estar em um andar muito elevado do castelo, ainda que em nenhum momento tivessem subido qualquer escada. Eles não conseguem entender pelo quê os berros clamam, mas eles não parecem nem um pouco contentes. Enxergam, então, o momento em que, do solo da mata, três orbes esverdeadas alçam vôo em direção ao céu, explodindo em fagulhas que lentamente vão tomando a forma de um escudo mágico ao redor do templo de Ayrith. Podem testemunhar ainda o instante em que a floresta ao redor do castelo começa a retorcer-se violentamente, colidindo seus galhos entre si e lançando vultos de pessoas ao alto, como se em uma tentativa de expulsá-las.

- Acho que estamos vivendo a noite em que as pessoas que queriam matar os dragões tentaram entrar no templo de Ayrith! – Duck exclama.

Após exploração minuciosa de diversos corredores, eles se deparam com pinturas nas paredes. Uma delas é um poema escrito em faério, com palavras de exaltação à Windmill Land, a cidade das fadas em Treefork. Outra se trata de um cajado com penas de corvo nas pontas, cravado na pedra, como se saísse de uma cova de cemitério. Ao lado desse cômodo, eles encontram um grande casulo crescendo sobre uma parede. Duck decide explorá-lo, colocando o olho em uma estreita fenda no casulo, ao que é respondido com um ínfimo brilho se acendendo lá dentro. Callie relata tratar-se de um casulo de fada.

- Ô, dona fada, você está aí? – Duck pergunta.

- ETHETH! – Os gritos voltam a eclodir, fazendo tudo ao redor estremecer novamente. Em um piscar de olhos, um espectro de fada, quase como um brilho fraco realçado na escuridão, prontamente dispara de dentro do casulo, alçando vôo de maneira frenética em direção ao corredor. Uma chave paira acorrentada ao brilho discreto. Duck rapidamente coloca-se a correr, lançando sua magia de salto para pular e agarrar a chave com a mão direita. Diante de uma colisão iminente com uma parede, ele chuta a pedra com seus pés, em um giro acrobático de execução perfeita, e cai no chão com um sorriso no rosto e a chave tilintando em mãos.

Eles não pensam duas vezes ao refazer o caminho trilhado anteriormente, rumo ao primeiro portão que avistaram, apenas para encontrá-lo cercado por criaturas esqueléticas de crânio alargado que se aglomeram na escuridão, como se fossem cegas, tentando escutar até mesmo o mais débil som.




O trio prende a respiração. Xavier utiliza um feitiço para simular vozes vindo do corredor oposto ao deles, lançando os esqueletos em um frenesi por sangue e fazendo-os perseguir as vozes mágicas, liberando a entrada do portão, que cede satisfatoriamente ao girar da chave.

Eles atingem a sala retangular, sendo recebidos por um cheiro fétido, como de um cadáver em decomposição, que espanca o olfato do trio, dando um giro nauseante no estômago. Em um piscar de olhos, ali, no centro do patamar, eles observam a figura de um dragão se materializar. Seu corpo enorme parecia um dia ter sido coberto por vistosas escamas que mais lembravam grama, com alguns galhos de árvores contornando-lhe a silhueta, como um dragão florestal.




Entretanto, nesse momento, o que se observa são grotescas feridas que lhe expõem a carne e, em alguns pontos, os ossos. O cheiro é terrível, o que faz Callie vomitar. Logo eles percebem que os urros de desespero saíam da boca do dragão.

"Eth…" – Ele sussurra, fraquejando.

Da escuridão, materializa-se a figura de um elfo, que atravessa um dos portões de ferro da sala. Trata-se de um elfo com vestes e tatuagens tribais, adornadas em um corpo forte e com o tronco desnudo. O elfo corre em direção ao dragão, agachando-se ao lado de sua cabeça.




"Eth, eu não tenho muito mais tempo" – O dragão fala com a respiração pesada e entrecortada.

"As ancestrais estão protegendo os portões, você vai ficar bem, aguente firme. Hestina está muito perto de encontrar uma cura" – O elfo responde, acariciando as feridas do animal. Ele parece muito aflito e emocionado, mas tentando esconder sua tristeza por trás de tais palavras reconfortantes.

"Não, eu não terei mais tempo" – O dragão suspira.

Duck, Xavier e Callie encontram-se visivelmente abalados com aquela visão grotesca e mórbida. Sentem um aperto forte no peito e um choro tímido esconder-se em suas gargantas. Com o canto do olho, observam o reluzir de uma lâmina revelando-se por trás do dragão. A figura formada revela um outro elfo, de cabelos negros com mechas brancas, presos em um adorno por trás da cabeça. O homem é o mesmo elfo já anunciado na lembrança vívida prévia, que havia atacado o rapaz trêmulo. Ele é esguio e traja imponentes vestes esverdeadas com botões e bordões dracônicos. Carrega consigo uma espada que agora está apontada para as costas do elfo de vestes tribais. Em um canto da sala, eles reconhecem o rapaz de sobretudo arcano que haviam visto anteriormente. Ele chora silenciosamente, agachado contra uma parede, como se soubesse o que o seu mestre estava prestes a fazer. Eth, o elfo agachado junto ao dragão, percebe a movimentação atrás de si.

"Iymbryl, o que você está fazendo?" – Ele parece surpreso – "O que você preten… não faça isso! Magos não são assassinos!"

"Magos só querem o poder" – Iymbryl responde entre os dentes cerrados. O trio apenas escuta o branir da lâmina no pretume do salão, enquanto todas as visões desaparecem, deixando-os apenas com um sentimento vívido de injustiça e sangue na boca. Callie, em lágrimas, começa a tocar uma melodia melancólica em seu violino, ecoando notas tristes enquanto todos se recuperam do que acabaram de testemunhar.

Depois do baque inicial, os heróis prosseguem caminho na sala retangular, rumo a outro portão de ferro que cede à chave com um clique. Na parede que se revela além das barras metálicas, observa-se uma pintura emoldurada que retrata um enorme dragão, o mesmo avistado há poucos segundos, mas dessa vez em pleno vigor físico, com um olhar acalentador rumo ao horizonte. Ao redor dele, Sasha, o aprendiz, com um rosto menos apavorado; Iymbryl Cairel, com seu semblante austero e mão repousando no cabo da espada; Eth Ung, o elfo tribal com expressão amigável; para a surpresa do trio, as Ancestrais, gnomos que Duck e Xavier haviam salvado no lago Monarca há dois dias, se abraçam com um sorriso no rosto à frente da pintura; uma pequena fada de pele esverdeada, com robes negros e cauda pontuda, paira sobre o ombro de uma gnomo que traja um vestido feito de madeira de carvalho e carrega consigo um cajado: Pixie Winter Mooncone e Hestina Oakendress. Por fim, um halfling sombrio se destaca do grupo, portando trapos enegrecidos, uma barba cinza e um cajado com penas de corvos: Mungo Ashblower. Os nomes estão todos escritos com uma caprichosa caligrafia em tons de dourado. Abaixo do dragão, repousa o título: Paracletos. No topo da gravura, lê-se: Ordem de Treij.


 






Os três não têm muito tempo para apreciar a pintura, muito menos para comentá-la, pois escutam um rugido na escuridão, vindo do lado esquerdo. Ao espiar o cômodo ao lado, percebem um enorme urso, com presas ameaçadoras, posto em um estado de agitação preocupante. Ele rosna, ruge e lança-se violentamente contra as paredes. Fincadas em seu couro encontram-se duas hastes metálicas, que derramam sangue das feridas do animal. Entre as duas hastes, os magos de Arcaneum e Callie observam uma cortina de veludo bordô. Xavier prontamente utiliza uma magia para acalmar o animal, que amistosamente se senta sobre o chão frio e encosta o focinho em uma parede. Grande é a surpresa quando, por entre a cortina, eles avistam um lustoso salão, com piso dourado entremeado com ladrilhos de vidro, vistosas pilastras de ouro erguendo-se ao teto e um vitral que lança a luz solar mais vívida de toda Treefork. Mesmo não compreendendo como aquilo seria possível, os três saltam cortina adentro, caindo sobre o piso do salão, que agora percebem que revela um ligeiro rio correndo sob os azulejos de vidro. O portal de entrada enfeitiçado desaparece atrás deles.



Ao observar o salão, eles percebem um cesto de ovos de dragão, que repousam em tons esverdeados, adornados por penduricalhos de ouro. A melhor inspeção do local é interrompida por uma voz dócil.



- Quem são vocês? – Uma halfling de cabelos loiros e emaranhados se revela. Ela traja vestes envelhecidas e desgastadas. Encontra-se emagrecida e pálida, com aparência de quem não se alimenta bem há muito tempo.

- Aurora?! – Exclama Callie – Ela tá bem acabada pra quem só tá desaparecida há três meses – A bardo sussura na direção de Duck e Xavier.




- Aurora, nós somos Duck Tyler e Xavier Jackman, magos de Arcaneum, e nós estamos aqui a pedido de Maljen Froni para resgatá-la. Vamos tirar você daqui – Duck se prontifica.

- Sair daqui? Nós não podemos sair daqui… Nós estamos presos – Ela responde, visivelmente abalada.

- Bem, apesar de não ter uma porta aqui, tenho certeza que conseguimos encontrar uma saída – Ele adianta.

- Vocês não estão compreendendo. Há quanto tempo acham que eu desapareci?

- Três meses? – Xavier reponde. A halfling sorri um sorriso fraquejante.

- Eu estou aqui há pelo menos três anos – ela suspira – Eu suspeito que há algum feitiço temporal isolando este lugar. A partir do momento em que vocês entraram aqui, estamos em outra dimensão de tempo, condenados a permanecer nela para sempre – Aurora parece já ter aceitado um destino terrível.

- Isso não pode ser verdade. Deve haver alguma saída. E esse alçapão aqui em cima? – Duck aponta para o teto, onde uma porta repousa com um reluzente cadeado trancafiando-a.

- Esse é o único local o qual eu não tentei verificar esse tempo todo. Às vezes escuto barulhos de algo arranhando o assoalho. Sinto uma energia terrível emanando daí – A halfling responde, sentando-se para recuperar o fôlego anêmico.

Enquanto Duck caminha pelo salão, a fim de encontrar a melhor abordagem para tentar abrir o alçapão trancado, Callie e Xavier tentam descobrir mais informações sobre o que aconteceu com Aurora.

- Era uma noite silenciosa de lua apagada. Acordei com uma sensação esquisita, algo me chamava para ir à floresta. Ao sair do templo e caminhar alguns metros, fui atingida por uma magia nocauteante e caí ao chão. Quando despertei, eu já me encontrava nesse salão. Eu nunca vi o grupo de pessoas que me sequestrou, mas sei que havia mais de uma. Eu apenas vi e ouvi uma fada, que ignorava todos os meus pedidos de ajuda ou súplicas por explicações. De alguma forma ela conseguia transitar entre o templo e o mundo real lá fora. Às vezes ela sentava-se no parapeito dessa janela e eu a escutava conversando em élfico com alguém, mas eu não via os interlocutores, apenas escutava os sussurros. Nos primeiros dias, a fada permanecia implacável, falando apenas o que fosse restritamente necessário comigo. Ela voava apressadamente por esse salão, sempre carregando um fragmento de espelho – A halfling ergue um pedaço do espelho mágico que o trio reconhece ser o mesmo que estava faltando no que usaram para conjurar a porta oculta - Eu pude entender que eles estavam em busca de algo muito poderoso e esperavam conseguir canalizar a minha magia premonitória por meio desse canal, o fragmento de espelho mágico. Mas não obtiveram sucesso. Depois de semanas de tentativas frustradas, eu nunca mais vi ou ouvi a fada, nem os sussuros: eles me deixaram aqui, sem alimento, para apodrecer e morrer – Aurora começa a chorar, em um choro fraco demais para ser contido.


- Mas você disse que está aqui há três anos… Como sobreviveu esse tempo todo?

- Depois de dias faminta, eu já estava sem esperanças. Eu conseguia água graças a esse rio encantado que corre abaixo dos ladrilhos: ali próximo à parede existe uma falha no piso pela qual eu conseguia esgueirar minha mão e coletar um pouco de água. Mas eu não tinha acesso nenhum à comida. Em uma noite, orei em súplica para que a Crisálida iluminasse meu caminho, e foi nesse instante em que ouvi um corvo do lado de fora da janela. Ele voou salão adentro, pousou ao lado dos ovos de dragão e eu pude perceber que ele carregava uma pequena sacola de renda com frutas e sementes em seu bico. Durante todo esse tempo, esse corvo me visitava e trazia alimento. Se hoje estou viva, foi graças ao milagre da Crisálida e a esta criatura misteriosa.

- Era o Ulzor Taros! – Exclama Duck. – Callie, você lembra que quando nós entramos no templo e encontramos aquelas figuras espectrais? Como eu falei, foram pessoas que encontramos em nossa jornada até agora. O Ulzor Taros estava entre eles porque eu e o Xavier o encontramos antes de chegar à Appleby. Ele salvou a vida do Black e ainda nos abrigou durante aquela noite. Vez ou outra, ele entrava em um estado em que o corpo dele ficava inconsciente e logo nós enxergavamos um corvo voar acima de nossas cabeças. Acho que era ele! Ele que ajudava a Aurora.

- Mas… Ele é um assassino… - Balbucia Callie, ainda incrédula.

O diálogo é interrompido por um estrondo vindo do sótão. Um fantasmagórico ruído de arranhões no assoalho emana do andar de cima. O barulho faz com que todos se preparem para um combate. Duck utiliza sua magia de patas de aranha para subir em direção ao alçapão, ao passo em que conjura sua esfera flamejante. Xavier convoca suas cópias ilusórias e Callie agarra-se firmemente ao seu violino.

Antes mesmo que Duck conseguisse abrir o cadeado do alçapão, ele é quebrado por uma pesada criatura, que cai no centro do salão. Trata-se de uma figura algo humanoide, com braços esguios e pálidos, o corpo coberto de armaduras de ferro e de prata. A criatura erguia no ar, de forma ágil e mortífera, dois pares de braços. Em uma mão, um turíbulo ardia em fumaça, liberando um sibilo peculiar. Na outra, uma lâmina pontiaguda gritava em tilintos ao ser manuseada contra o ar. Em outra mão, o ser segurava um enorme chicote de couro, entremeado por espinhos. A criatura bufava e exalava ódio pelos poros. Um combate não tardaria a começar.




Duck prontamente move sua esfera flamejante e a faz chicotear contra o inimigo, repetidas vezes, apenas para mostrar o quão ágil a criatura consegue escapar das chamas. Callie, entre uma nota de inspiração e outra, lança mísseis mágicos contra a carapaça metálica do ser endemoniado. Xavier se move precisamente pelo salão, acompanhado por suas cópias ilusórias que fazem com que o inimigo não saiba quem atacar para acertá-lo. A lâmina da besta é precisa, lançando golpes à distância que são acompanhados pelo estalar ensurdecedor do chicote de espinhos, que em pouco tempo mostra a que veio e deixa um rastro eritematoso na carne dos jovens. Entre o arfar ígneo das mãos de Duck e a melodia de Callie, Xavier consegue cegar a criatura, o que faz com que ela fique cada vez mais ensandecida. O ser conjura, com suas mãos em garra, a aparição de redemoinhos e ventos implacáveis, que lançam Aurora contra uma parede, fazendo o ombro da halfling deslocar-se em um barulho seco. Muito motivado, Xavier concentra-se ao lançar uma nuvem rósea que atinge o capacete do demônio, libertando-o para o mais profundo sono mágico. O trio não perde tempo: Callie, com seu machado em mãos, Xavier, de maneira trêmula, segurando uma adaga; e Duck, carregando raios elétricos em seus dedos, atacam a criatura ao mesmo tempo, fazendo o seu corpo dançar em um frenesi doloroso. As lâminas atingem o ser no pescoço, o que faz uma poça de sangue começar a desaguar sobre os ladrilhos do piso. Por fim, Tyler eletrocuta o corpo convulsivante do demônio, em uma descarga elétrica tão intensa que é capaz de terminar o serviço e decapitar a entidade, fazendo com que sua cabeça fuja do corpo como um foguete, chocando-se contra a parede como um saco de ossos. Aurora lança um grito de pavor, o que obriga Callie a correr em sua direção para acalmá-la.

Xavier, tendo em mente o que Aurora havia comentado sobre não ser possível deixar o castelo devido a uma poderosa magia que os isolavam em uma outra dimensão do tempo, decide fazer um teste impulsivo: ele caminha calmamente na direção da cabeçorra estilhaçada da criatura, vai em direção à janela e lança os restos mortais daquele ser em direção à amistosa luz do dia que se revela através dos vitrais, apenas para observar, em choque, a matéria orgânica se desfazer em cinzas, que caem suavemente sobre o mar abaixo do castelo. É, parece que é verdade mesmo.

Duck lança uma olhadela significativa na direção do amigo e ele parece saber o que fazer, pois prontamente busca em sua bolsa pela ampulheta mágica que haviam resgatado das criaturas maléficas na Floresta dos Sussurros. Ao repousar o cordão do artefato sobre o pescoço, tudo ao redor é posto em um estado fluido e repetidamente vagaroso, menos o rio que corre abaixo dos ladrilhos.

- É o rio! O rio é a ponte entre a dimensão do tempo normal e esta. Precisamos entrar no rio! – Ele exclama.

- Todos se preparem! – Duck ordena, enquanto saca do coldre a espada do demônio do templo, pois, obviamente, ele já havia coletado cuidadosamente todos os objetos do ambiente, incluindo um ovo de dragão, envolto em suas escamas esverdadas. Os outros membros do grupo se amontoam atrás dele. O jovem mago golpeia o vidro do piso do salão, liberando uma pressão mágica que há muito parecia estar adormecida. Um a um, os ladrilhos começam a explodir em gêiseres de água cristalina e o local começa a ser preenchido por água em uma velocidade absurda.

- Se segurem em mim! – Tyler grita, lançando sua magia de patas de aranha para conseguir se fixar firmemente à parede da janela, lutando contra a forte pressão da água que teima em afogá-los. Não demora muito para todo o salão estar completamente submerso.

Em meio aos gritos bolhosos de todos, Duck, que está mais à frente, percebe que, apesar de a janela estar aberta, a água não a atravessa. É a deixa perfeita para fazê-lo se esgueirar para fora da abertura, enquanto puxa todos consigo. Ao que tudo indica, era isso que faltava para mesclar as duas dimensões do tempo, que se fundem em uma violenta cascata janela abaixo, desfiladeiro abaixo, magos e halflings abaixo, arremessando-os contra o mar. A queda seria violenta se, em meio à confusão, Duck não tivesse agarrado e girado o objeto metálico em forma de peixe que achara em sua bolsa mais cedo, lançando-o em uma metamorfose metálica inflável que revelou um enorme bote de borracha em um piscar de olhos. O objeto parecia tratar-se, afinal, de uma elaborada engenhoca steampunk. O mago conjura sua magia de queda suave sobre o bote e todos atingem as espumas do oceano com um baque suave, mas logo precisam se preocupar com a correnteza feroz das águas. Não por muito tempo. Uma voz já conhecida ecoa ao longe.

- Vai uma ajudinha aí? – Elias "Tremelique" Prout e Ollie Wolf, os prisioneiros resgatados pelos magos de Arcaneum, observam fascinados a cena pitoresca do grupo flutuando em uma boia gigante. Os dois se encontram na proa do navio Mayflower, aparentemente furtado com sucesso pela dupla de piratas. Todos respiram mais aliviados… por enquanto.


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jpedrovas

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